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Era uma vez uma sementinha chamada SOMU. Há 30 anos atrás caiu do céu aos meus pés vinda de outra dimensão, completamente por acaso, em terras distantes. Essa semente, aparentemente inerte, pulsava de vida, a sua casca exibia cor e beleza, trazia no seu embrião o desejo de transformar o mundo e, no seu tecido de reserva, um condensado nutritivo de ARTE, com sais de teatro, música, pintura e poesia. Peguei na semente e plantei-a num vaso de terra fértil de experiências que fui regando de pessoas. O tecido de reserva foi alimentando o embrião durante a sua germinação e, aos poucos, uma planta foi tomando corpo. No início difícil de catalogar, foi ao longo do tempo fácil perceber que seria definitivamente uma angiospérmica. Um tipo de planta banal, a mais abundante da terra, daquelas que dão flores e frutos. Uma planta especial, nunca vista, com um caule em forma de Z. Aparando nela esporadicamente as folhas secas da minha indiferença e pressa, noutras fases esquecendo-me completamente da sua existência, quase morreu. Resilientes, as suas raízes foram ocupando cada vez mais espaço, exigindo um vaso cada vez maior. Um crescimento por solavancos, consoante as estações da vida. Hoje, esse vaso é uma casa acolhedora. E a planta, um projeto chamado SOMUZART.

Este projeto biofílico é um espaço difícil de explicar porque ainda está e estará sempre a acontecer. Moldado continuamente por quem o habita e por quem o visita. Sabemos que tem no seu centro a Psicologia como a ciência da curiosidade profunda pela natureza humana e na psicoterapia uma ferramenta para fortalecer a ligação entre os seres humanos e a natureza (interior e exterior). Que relembra que acima de tudo o que fazemos e temos, nós somos. E que mais do que um produto, nós somos um processo. Uma autêntica obra de arte, seres únicos, delicados e bestiais. Entidades criativas em revolução permanente. Ao mesmo tempo criaturas e criadores. Porque não existimos separados, o nosso crescimento e bem-estar precisa de ser pensado de maneira a integrar todas as nossas dimensões física, mental, emocional, social, comunitária, ambiental e espiritual.
No dia 20 de junho 2026, o SomuZart celebrou uma nova fase da sua vida pois deixou de poder ser transplantado por ser demasiado grande de ideias. A inauguração acolheu nas suas Entrelinhas a exposição de Carina Rafael, artista e arte-terapeuta de Famalicão, com quem os primeiros contornos deste projeto se foram sonhando há muitos anos atrás. Nesta festa, os seres vegetais ocuparam o palco sob o holofote da nossa atenção e os seres humanos, foram o público contemplativo. Cada uma destas plantas singulares ocupou cerimoniosamente através de um pincel o seu espaço nas paredes, recebeu um nome e escolheu onde queria ficar no terraço. Cada uma destas pessoas particulares deixou nelas um pouco de si, um lugar de (re)encontro onde poderá sempre regressar sempre que precisar.
Assim como os sistemas ecológicos, o SomuZart não procura o crescimento exponencial, mas sim a homeostase. Não deseja a infinitude mas a produção de novas sementes. Convida à exploração do ser individual, na relação consigo mesmo, com os outros e com os mundos que o rodeiam. Apela, por fim, à importância de sermos "Zart", de cultivarmos a suavidade e a ternura em cada gesto e objeto do quotidiano. Não será essa a única eternidade possível?

Artigo: Irene Monteiro